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Thursday, November 26, 2009

O último Hippie - Um antropólogo em marte, SACKS, Oliver.


1. Resumo

O presente trabalho pretende apresentar um estudo de caso, ou seja um estudo profundo de um ou poucos objetos, afim de adquirir um amplo e detalhado conhecimento. Sua característica intensiva, permite a evocação de informações que de uma outra forma não seriam descobertas (FACHIN, 2001), do capítulo três: “O último Hippie” da obra: Um antropólogo em marte, do neurocirurgião Oliver Sacks. Serão abordados aspectos da história de vida, diagnóstico da patologia e tratamento, sob o qual o paciente foi submetido, relacionando se o mesmo foi ou não, tratado numa esfera biopsicossocial, que significa avaliar o indivíduo em sua totalidade, valorizando fatores biológicos, psíquicos e sociais.







2. História de Vida

Greg F. em sua infância nos anos 50, foi uma criança inteligente e talentosa, acreditava-se que teria uma carreira profissional, semelhante ao seu pai e como demonstrava habilidades para compor letras de músicas, possivelmente se tornaria um letrista. Entretanto em sua adolescência, no fim dos anos 60, tornou-se um jovem agitado e questionador, passou a odiar a vida que seus pais e vizinhos levavam e o governo, demonstrava comportamentos agressivos com seus pais e era omisso com seus professores, enfim tornou-se um rebelde e visitava constantemente o Village, local em que se refugiava para ouvir rock roll. Em 1968 estava cabeludo e resolveu deixar a escola, onde, por um tempo, havia sido um bom aluno, abandonou a casa de seus pais e partiu para o Village, lá experimentou drogas em busca de uma liberdade utópica, rumo a uma “consciência superior”.

Já adulto, a maneira de vida que levava não o agradava mais, foi então que em 1969, sentiu-se atraído por uma sociedade de consciência Krishna, largou as drogas e substitui suas “viagens”, pela exaltação religiosa. Rapidamente tornou-se um devoto, compromissado, tudo que lhe acontecia, atribuía há uma grande revelação espiritual.

Em 1971, Greg já estava totalmente integrado a irmandade, foi enviado ao templo de Nova Orleans, nessa época já não tinha nenhum contato com seus pais. No segundo ano ao lado dos Krishnas, queixou-se que sua visão estava ofuscada, seus primeiros sintomas, mas seus companheiros o convenceram que se tratava de uma iluminação superior, então Greg se tranquilizou e passou a não se preocupar mais com o agravamento de sua visão. Se encontrava espantosamente sereno, mais calmo e paciente, não apresentava mais traços de ansiedade, como antes. Sucumbia numa espécie de torpor, com um esquisito sorriso nos lábios, era considerado por seu companheiros, um santo e por este motivo se mantinha recluso, numa espécie de proteção contra o mundo exterior.

Os pais de Greg, raramente recebiam noticias sobre o filho, estas sempre relatavam seu progresso espiritual e não continha maiores detalhes, as respostas para suas cartas sempre se repetiam em mensagens tranquilizantes e apaziguadoras. Passaram-se três anos até que seus pais decidissem visitá-lo, datava 1975, e após quatro anos sem vê-lo, foram até o templo, o Sr. F., pai de Greg estava doente e temia não poder mais ver o filho.

Horrorizados os pais de Greg, se depararam com uma pessoa completamente diferente do jovem magro de cabelos compridos, Greg estava gordo e careca, mantinha um sorriso estúpido (assim descrito por seu pai), parecia inerte a realidade, vazio de sentimentos. Cantarolava trehos de músicas e mantras e tecia comentários irrelevantes, estava desorientado e totalmente cego.
Com a intervenção de seus pais, Greg deixou o templo e não enfrentou objeções de seus companheiros Krishnas, que talvez tinham percebido que sua ascensão espiritual tinha ido longe demais. Greg foi hospitalizado, examinado e direcionado a neurocirurgia onde foi submetido a vários exames os quais revelaram um grande tumor no seu cécrebro que comprometia partes importantes e fundamentais para ter uma vida plena e normal.

3. Diagnóstico

3.1 Sintomas

Quando ainda morava no templo, Greg queixou-se de problemas com a sua visão, ela estava turva e ofuscada e esse quadro se agravou progressivamente. Com o passar dos anos passou a apresentar um aspecto inerte a sua realidade, não se interessa mais pelos acontecimentos atuais e em determinados momentos declamava versos e comentaríos vazios sem significado algum, não demonstrava sentimentos ou emoções, parecia anestesiado, estava desorientado e por fim cego.

3.2 Histórico da Patologia

Através de diversos exames entre eles, com instrumentos de neuroimagem foi possível visualisar um enorme tumor que atingiu áreas vitais do seu encéfalo, deteriorando no só partes físicas mas todo o mecanismo psíquicos que estes envolviam e desempenhavam. A glândula Pituitária ou hipófise, que produz numerosos e importantes hormônios e também é responsável pela regulação de outras glândulas foi destruída, a região do lobo frontal também foi atingida, sabe-se que o lobo frontal é o lugar onde organizamos nossos pensamento e ações futuras e envolvem criatividade, expressão e raciocínio, também foi atingido o lobo temporal que está diretamente relacionado com o aprendizado e o afeto e ainda o diencéfalo que é formado pelo tálamo e hipotálamo e desempenham funções primordias, regulando sono, apetite e libido, foram danificados consideravelmente (BEAR, 2002). Mesmo se tratando de um tumor benigno, seu tamanho avantajado próximo ao de uma laranja, culminou em estragos inreversíveis.

Além de cego, Greg estava incapacitado cognitivamente, o que poderia ter sido evitado se no decorrer de suas primeiras queixas fosse submetido a exames médicos. Sem esperanças de recuperação foi levado ao Hospital Williamsbridge que se dedica ao tratamento de doentes crônicos, a vida de um jovem interrompida sem esperanças de prognósticos animadores.

3.3 Sequelas

Greg se tornou recluso, não era espontâneo e nem interagia com os outros, mas respondia de pronto a quem o indagasse. Seu foco de atenção estava extremamente debilitado, logo se o tempo entre as perguntas não fosse preenchido por completo, costumava haver grande silêncio, que comumente era interropido por Greg com suas canções e mantras Hare Krishnas, sua devoção não havia sido abalada, como o mesmo costumava dizer.

Segundo Stenberg (2000), a atenção atua como um meio de focalizarmos recursos, mentais limitados sobre a informação e os processos cognitvos, mais evidentes num determinado momento. Greg apresentava déficits de atenção significativos, uma vez que manter um diálogo com ele poderia ser uma tarefa difícil, se questionado à respeito de sua estadia no hospital, não sabia explicar os motivos que o levaram ao internamento, suas respostas não faziam sentido e nada relacionava ao real motivo.

Suas lembranças pareciam embaraçadas, estava indiferente á sua condição física debilitada, negando o fato de estar cego ou com o andar fragilizado. Inconsciente e a margem da realidade, continha um aspecto afável e tranquilo, que escondia todo o drama que seu encéfalo vivia.
Segundo Weiten (2002), a percepção é a seleção, organização do impulso sensorial (sensação é a estimulação dos orgãos do sentido). A Percepção de Greg estava estável, reconhecia vozes, músicas e objetos, apesar de sua visão debilitada, sem muitas dificuldades.

Greg apresentou grandes danos de memória, profundamente confuso, quando questionado sobre atualidades e personalidades, demonstrou uma tamanha incoerência em suas respostas, citando um grande astro de rock como presidente, essas respostas levaram a Oliver Sacks, neurocirurgião que acompanhou e cuidou do caso Greg desde o início, a crer que seu paciente não recordava acontecimentos que datavam após aos anos 70, época posterior a sua cirurgia de remoção do tumor, estava esatcionado nos anos 60, ano em que sua vida foi “interrompida”.

Os danos sofridos no lobo temporal, não permitiam que novos acontecimentos fossem armazenados, lembranças cujo o registro datava do final dos anos 60, eram evocados com dificuldade. Além da incapacidade de novos registros, lembranças existentes também foram afetadas. A amnésia retroativa, também conhecida como retrógrada, que consiste na perda de memória intencional para eventos anteriores ao trauma sofrido (STEMBERG, 2000), se manifestou em Greg, como um decréscimo temporal, de maneira que eventos mais próximos ao anos 70 quase nunca eram lembrados.

Com um alto grau de amnésia imediata, ou anterrógrada, onde o sujeito possui grandes dificuldades para lembrar-se de acontecimentos após o trauma (STEMBERG, 2000), Greg, tinha problemas para se recordar das coisas que acontecia em seu dia a dia, Sacks, utilizou um pequeno teste para perceber a gravidade da amnésia que acometia seu paciente, contou-lhe um uma história breve e pediu que ele repetisse, Greg o fez de maneira confusa até que a história não tivesse semelhança alguma com a primeira, isso num curto espaço de tempo.

Ao saber do interesse de Greg pela música, preferencialmente rock roll, Sacks fez perguntas sobre o assunto e foi surpreendido, Greg se transformou, falou com grande fervor sobre suas músicas e banda preferidas, havia muito sentimento em sua declaração, lembrava de detalhes de shows e dos componentes de sua banda predileta, cantou sua canção mais querida por inteiro, o que devolveu a Greg, naquele momento, um brilho diferente.

Para Greg, a lembrança do último show era recente, um ano talvez, mas, realmente fazia cerca de oito anos, desde a última apresentação do grupo. Greg não viu o fim da banda e nem sabia que seus ídolos do rock estavam mortos, seu déficit de memória não permitiu que tais informações fossem registradas. Diante de tudo que estava vivendo, Greg era literalmente o “último Hippie”.

4.Tratamento

Greg se adaptou com facilidade ao hospital e suas rotinas, parecia conformado com sua situação, pois não havia outra escolha. Seus pais, que em sua adolescência rebelde eram distantes, agora vinham visitá-lo com muita frequência, tratavam -no como um bebê com muitos mimos, Greg sempre os recebia com gratidão e cordialidade, não havia cobranças e se por algum motivo, seus pais não pudessem vê-lo, ele não notaria sua ausência e no próximo encontro seria tão amável quanto no anterior.

Greg em seu quarto possuía discos e livros, recebeu também uma lista de programas: fisioterapia, terapia ocupacional, grupo de música e teatro. Foi transferido para ala dos mais jovens, lá era popular e carismático com todos, mesmo sem conhecê-los, pois não se lembrava de nenhum deles, era indiscriminavemente cordial com todos. Através do seu contato com a musicoterapeuta Conie, Greg pode ampliar seu repertório musical, novas técnicas e posições na gutitarra. Sua memória processual não foi afetada, também pôde aprender a datilografar.

Greg foi muito estimulado cognitivamente, através da música ele aprendeu, não só novas canções, mas versos, jingles de propaganda de rádio e televisão. A repetição e principalmente o ritmo despertava diferentes tipos de mecanismos de sua memória. Não havia dúvidas que a música podia emocioná-lo profundamente, trazendo uma espécie de “cura”, que podia ser vista em seu encefalograma, que se tornava calmo e rítimico com a música. A técnica do jingles foi utilizada para ajudar Greg referente ao tempo, eram inventadas pequenas versos citando a data, o mês e o ano, este método provocou em Oliver Sacks, questionamentos maiores, seria possível através da música imbutir informações de grande importância, num nível mais profundo, dando a Greg mais que apenas fatos mais um sentido de tempo e história? Por causa da cegueira que Greg adquiriu, foi sugerido que ele aprendesse braile, mas como o mesmo não a continha menor noção que estava cego, não aceitava esta idéia, logo este projeto foi abandonado. Com o passar do tempo, cerca de dez anos, como Greg não apresentava grandes avanços, foi gradativamente deixado a seus próprios mecanismos.

Greg e Sacks, desenvolveram um laço que ía além do relacionamento entre médico e paciente. Através do caso de Greg, Sacks se sentiu motivado à ampliar seus estudos e conhecimentos na área de patologias que envolviam o Lobo pre-frontal. Sacks também permitiu a Greg experiências marcantes, a ida juntos para um show de rock é um exemplo disso, lá Greg pôde reviver itensas emoções, mesmo que a lembrança deste passeio jamais fosse evocada posteriormente.

5. Visão Biopisocossocial

A origem do conceito Biopsicossocial vem da Medicina Psicossomática, este compreende o ser humano em sua totalidade. Todo indivíduo possui potencialidades biológicas, psíquicas e sociais e estas se relacionam a todo momento diante das condições e experiências de nossa vida. Esta relação se apresenta de várias formas e intensidades, no que tange estas três modalidades, podendo se manifestar de uma maneira mais significativa em um ou em outro aspecto, embora todos estes sejam interdepentes.

A esfera biológica diz respeito às características físicas que herdamos e adquirimos ao longo da vida. Inclui também o metabolismo orgânico, sua resistência e vulnerabilidade. A esfera psicológica engloba todos processos psíquicos: emocionais, afetivos e de raciocínio consciente e inconsciente, que moldam a personalidade de cada um e dão o alicerce para o modo de como enfrentamos às situações da vida.

A esfera social compreende os princípios e valores, o papel que se desempenha na família e no trabalho e em todo âmbito que cada pessoa convive, pertence e participa. O meio ambiente e a localização geográfica também compõe a dimensão social. A partir de uma análise sobre o exposto e em resposta ao questionamento proposto, concluímos que Greg foi tratado como um ser biopsicossocial, o hospital Williamsbridge e sua equipe de profissionais capacitados, preocupou-se em oferecer um tratamento onde Greg pudesse desenvolver e aprimorar suas funções psíquicas, biológicas e sociais. Apesar de sua lesão no lobo frontal dificultar e muitas vezes impedir o seu progresso, Greg participou de seções de fisioterapia, teatro, musicoterapia e trabalhos grupais, apresentou algumas melhoras e adequação a sua rotina, confirmando assim que foi compreendido e tratado em sua totalidade.


6. Referências

SACKS, Oliver. Um antropólogo em marte. São Paulo: Companhia das letras; 1995.

BEAR, M.F., CONNORS, B.W., PARADISO, M.A. N. Desvendando o Sistema Nervoso. 2.ed. Porto Alegre: Artmed; 2002.

WEITEN, Wayne. - Introdução a psicologia: temas e variações. 4.ed. São Paulo: Pioneira Thompson; 2002.

STENBERG, Robert J. Psicologia Cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 2000.

MELLO FILHO, J. e Colaboradores. Psicossomática hoje. Porto Alegre: Artes médicas; 1992.

FACHIN, Odília. Fundamentos de metodologia. 3.ed. São Paulo: Saraiva, 2001.


* Agradecimentos

Meu sincero muito obrigada a companheira de ''projeto de pesquisa'' Erica (rsrsrsrs), a Neu e ao Toni. O mérito do trabalho é de v6!

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